Mural Literário

Poema vencedor da Olímpiada de Língua Portuguesa 2010

Não ter onde morar

Eu moro em São Paulo
Bairro do Jaçanã
Eternizado por Adoniran.
Confusão na vila
Nunca vi uma coisa daquela!
Em questão de instantes acabou a favela.
Muitos barracos no chão
É hora da desapropriação.
Cada tábua que caía, doía meu coração.
E a população?
Ficou sem eira, nem beira, nem chão.
Houve até manifestação!
Sem ter onde morar
Fiquei sem lar.
A favela era o meu lugar.
Agora só resta a mudança
Acreditar na esperança
Ainda sou criança
E espero a bonança.
Palavras do poeta inspiram lembranças.
Saudosa maloca, maloca querida.
Lá na terra "nóis passemo"
"Dias feliz" da nossa vida.
Quero um mundo melhor
E sair dessa pior.
Já são onze horas, não posso perder o trem
Que já vem... Que já vem... Que já vem...

(Fábio Henrique Silva dos Anjos, vencedor na categoria poesia, aluno da Professora Patricia Alves de Amorim Percinoto, da EMEF Frei Antônio de Sant'Ana Galvão - São Paulo)




Ou isto ou aquilo
Cecília Meireles
Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!


Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!


Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.


É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!


Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.


Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...

e vivo escolhendo o dia inteiro!


Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.


Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.









Traduzir-se


Uma parte de mim

é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo. 



Uma parte de mim

é multidão:
outra parte estranheza
e solidão. 



Uma parte de mim

pesa, pondera:
outra parte
delira. 



Uma parte de mim

almoça e janta:
outra parte
se espanta. 



Uma parte de mim

é permanente:
outra parte
se sabe de repente. 



Uma parte de mim

é só vertigem:
outra parte,
linguagem. 



Traduzir uma parte

na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?



Ferreira Gullar
De Na Vertigem do Dia (1975-1980)







Poemas elaborados pelos acadêmicos, a partir da figura folclórica do Saci , nos encontros de Literatura da AEL Castro Alves                      
                       
                                    Saci! Saci!
                           Muito brincalhão
                           Muito divertido
                           Que até cai no chão
                           Vaga pela noite
                           Aprontando de montão
                           
                            Quando ele chega
                             Sempre engana alguém
                             Mas quando vamos ver
                             Não há mais ninguém
                             Muitos acham que ele existe
                             Outros acham que é do além

                             O Saci de uma perna só
                             É negro e muito sapeca
                             Com um barrete vermelho
                             Sai caçando perereca
                             Por ser tão famoso
                             Já está na biblioteca

(Autoria dos acadêmicos Hugo, Ana Beatriz, Mayara Vendramel, Kaique e João Pedro)



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